

À primeira vista, parece um contraste impossível. Mas foi exatamente nesse choque, nessa fricção entre o rural e o urbano, que o meu som nasceu.
Quando comecei a dedicar minha vida à viola de dez cordas, eu não queria apenas replicar o que já existia nos discos clássicos. Eu queria entender como essa voz ancestral soaria no sul do país. Hoje, ao olhar para o percurso que Clebson Ribeiro construiu, percebo que essa tensão é o que dá identidade à minha música. Não é sobre fugir da raiz, mas sobre plantá-la em um solo diferente e ver que tipo de fruto nasce.
O peso da viola caipira no sul do país
A viola caipira não é um instrumento de meia medida. São dez cordas de aço, organizadas em ordens duplas. Ela exige calos, precisão mecânica e uma escuta muito apurada. Tocar esse instrumento em uma metrópole como Curitiba exige uma decisão consciente todos os dias. Não é o som que toca espontaneamente nas esquinas ou nos grandes eventos de massa da cidade. É um som que precisa ser buscado, cultivado em estúdios e salas de ensaio.
Essa busca me aproximou de referências que vão além da música puramente caipira. Sempre fui muito marcado pela viola instrumental brasileira. Nomes como Rogério Gulin, Neymar Dias e Ivan Vilela me mostraram que a viola pode ser um instrumento de concerto, de nuance, de sutileza harmônica. E, sim, o rock dos anos 70 também está lá, pulsando nas entrelinhas dos meus arranjos, trazendo uma certa urgência e ataque na palhetada.
Essa mistura não é uma colagem forçada. É o resultado natural de quem cresce ouvindo tudo isso enquanto olha para a neblina da capital paranaense. O resultado prático desse encontro pode ser ouvido no livro Arranjos Contemporâneos para Clássicos Caipiras, lançado em 2023. Ali, tentei traduzir essa dualidade: pegar melodias que todo mundo conhece e vesti-las com uma roupagem que faz sentido para o meu contexto atual.
Entre a reclusão e o encontro com as feras
Curitiba abriga violeiros renomados que são verdadeiras referências. Rogério Gulin, por exemplo, é o grande mestre da viola caipira que diretamente fez parte da vida musical de tantos de nós, influenciando e caminhando ao lado de nomes como Emiliano Pereira, Junior Bier, Diamante e Lu Pasinato, entre outros.
Eu, por minha vez, sou um tanto recluso e introspectivo. Não circulo muito pelas noites curitibanas, e isso é um reflexo do momento musical e pessoal que estou vivendo. Mas, justamente por essa distância, é sempre um grande prazer e uma honra quando encontro essas feras. Esses encontros, ainda que esporádicos, reafirmam que estamos todos conectados por essa mesma corda de aço, mesmo que cada um a toque de um jeito diferente.
O silêncio como parte da composição
Em Curitiba, o silêncio tem um peso diferente. Talvez seja o frio, talvez seja a introspecção que a cidade às vezes impõe aos seus habitantes. Isso acabou moldando profundamente a forma como componho e arranjo.
Em álbuns como Mantras e Amiúdes (2024) ou no trabalho que fiz com a Mel Moraes em Camponês depois da Guerra (2023), o que não se toca é tão importante quanto o que se toca. A viola de dez cordas permite uma riqueza harmônica e textural enorme. Mas encher todas as frequências o tempo todo é um erro comum de quem está começando e quer mostrar que sabe tocar.
Aprendi, muitas vezes da maneira mais difícil, que a personalidade musical surge nos espaços vazios. É ali que o ouvinte respira. É ali que a nota anterior ecoa e ganha significado. Essa abordagem mais minimalista e reflexiva é, para mim, a verdadeira essência da viola instrumental contemporânea feita aqui no sul. Não precisamos gritar para sermos ouvidos. Às vezes, um único acorde bem colocado, deixado no ar, diz mais do que uma sequência interminável de escalas.
Ser violeiro fora do eixo tradicional
Existe um certo romantismo em ser o “caipira” no meio da cidade grande. Mas a realidade é mais complexa e muito mais rica do que isso. Ser um violeiro de Curitiba significa não ter a obrigação de seguir um roteiro pré-estabelecido pelo mercado fonográfico do sudeste. Significa ter a liberdade de experimentar sem a pressão de se encaixar em uma caixa específica.
Meus arranjos não buscam apenas a fidelidade histórica. Eles buscam uma releitura que faça sentido para quem ouve hoje, aqui. É uma música de raiz, mas com um olhar que aponta para a frente. É a prova viva de que a cultura caipira não é um museu empoeirado. Ela é viva, maleável e capaz de se adaptar a qualquer solo, mesmo que esse solo seja de concreto, asfalto e araucária.
A viola me ensinou a escutar o mundo. E Curitiba me ensinou a escutar o silêncio entre as notas. Juntas, elas formam a base de tudo o que faço.
Continuando a conversa
Se você chegou até aqui, provavelmente também sente essa conexão com a música que vai além do óbvio. Convido você a ouvir esses arranjos com novos ouvidos.
Explore o acervo de partituras e álbuns no Armazém, acompanhe os bastidores e as novas composições no meu Instagram (@clebsonrn) e, quem sabe, a gente se encontra em algum show por aí. A viola continua afinada, e a história está apenas começando.




