Capa do álbum Camponês depois da Guerra, parceria entre Clebson Ribeiro e Mel MoraesHá certas músicas que não nascem prontas. Elas vão se formando no espaço entre uma cidade e outra, em áudios trocados no meio da tarde, em sugestões que surgem quando a gente menos espera. Foi exatamente assim que nasceu “Camponês depois da Guerra”, uma parceria que carrega a essência do que eu, Clebson Ribeiro, busco fazer com a viola caipira de dez cordas: unir a raiz brasileira a um olhar contemporâneo, mesmo que a gente esteja a quilômetros de distância física.

A viola sempre foi um instrumento de encontro. Mas, às vezes, esse encontro acontece através da tela do celular, de um arquivo de áudio que viaja de um estado para o outro, carregando consigo a intenção de quem compõe.

Como nasceu Camponês depois da Guerra: a distância que encurta a criatividade

A Mel Moraes é uma amiga e parceira de longa data, alguém com quem compartilho não apenas a música, mas uma visão de mundo sobre o que a cultura de raiz pode ser hoje. Essa música específica foi feita em abril de 2022, embora só tenha sido publicada oficialmente em 2023.

Na época, ela estava em sua casa, no sítio em Minas Gerais, cercada pela paisagem que inspira tantas canções do nosso imaginário. Eu estava aqui em Curitiba, lidando com o frio e o ritmo urbano do sul. A distância geográfica, que em outros contextos poderia ser um obstáculo, acabou se tornando o terreno fértil para a composição. Ela me enviou alguns áudios da composição que nascia, e eu ia sugerindo algumas coisas, num vai e vem natural, sem a pressão de um estúdio, apenas a liberdade da criação à distância.

O solfejo que definiu o rumo

Lembro com clareza de um momento específico durante esse processo. Eu estava no trabalho, em meio à rotina, quando recebi um trecho da música que parecia carregar uma tensão musical interessante. Sem pensar duas vezes, saí da sala em que estava apenas para gravar um áudio solfejando aquele trecho, propondo um caminho melódico que resolvesse a harmonia de um jeito que fizesse sentido para a viola.

Essa dinâmica entre nós sempre foi fresca, boa e divertida. Não havia egos em disputa, apenas a vontade conjunta de fazer a música soar verdadeira. Depois desse intercâmbio inicial, assumi a responsabilidade de fazer o arranjo de viola, trazendo a minha leitura técnica e sensível para aquele material bruto e potente que a Mel havia criado. Era o meu jeito de estar presente na música, mesmo estando em outro estado.

Cordas, tambores e um nome trocado

Para a produção final, senti que a música pedia mais do que apenas a presença solitária da viola. O tema merecia uma paisagem sonora mais ampla. Por isso, adicionei cordas, cellos e tambores, buscando dar nuances, profundidade e um certo dramatismo à narrativa que a letra e a melodia já sugeriam. Foi um processo de construção por camadas, onde cada instrumento entrava para servir à emoção, e não para chamar atenção para si.

Curiosamente, a Mel batizou a música originalmente como “Camponês antes da Guerra”. Mas, na hora de registrar e formalizar o lançamento, eu cometi um erro de digitação e coloquei “Camponês depois da Guerra”.

Poderia ter sido apenas um equívoco burocrático. Mas, pensando bem, esse “erro” acabou fazendo todo o sentido do mundo. A música, em sua essência, fala justamente sobre o que resta, sobre a paisagem e o sentimento que permanecem depois que a poeira baixa, depois que o conflito (seja ele interno ou externo) passa. Às vezes, o acaso é o melhor dos arranjadores, e o destino sabe dar nomes às coisas melhor do que nós.

A música como ponte

A viola caipira de dez cordas é, por natureza, um instrumento de diálogo. Ela conversa com a história, com a terra e, neste caso, conversou com a distância. Quando ouvimos o resultado final, não ouvimos apenas notas; ouvimos o registro de uma amizade que soube transformar a separação geográfica em proximidade artística.

Essa parceria com a Mel Moraes reforça o quanto a música caipira é viva, maleável e capaz de transitar entre diferentes realidades. Ela cabe no sítio em Minas e no frio de Curitiba. Cabe no solfejo improvisado no meio do expediente e no arranjo de cordas pensado com cuidado e calma. É sobre isso que trata o meu trabalho: encontrar o universal no particular, o eco da roça no concreto da cidade.

Se você quiser entender um pouco mais sobre como essas conexões e parcerias moldam o meu trabalho, convido você a explorar outras músicas que fazem parte dessa jornada sonora.

E, claro, não deixe de ouvir “Camponês depois da Guerra” nas plataformas digitais. A história completa dessa parceria está em cada acorde.

Por Clebson Ribeiro

Por Trás da Cortina