Capa do álbum Mantras e Amiúdes, de Clebson Ribeiro, com viola caipira
Quando decidi gravar meu novo álbum, a primeira barreira não foi técnica, nem musical. Era o barulho. Morar no centro de Curitiba, uma capital vibrante mas implacável, significa conviver com o trânsito, as sirenes e o zumbido constante da vida urbana. Como violeiro, eu buscava o oposto: o espaço, a respiração, a raiz. Sou o Clebson Ribeiro, e este é o relato de como transformei o caos da cidade em “Mantras e Amiúdes”, um álbum que nasceu do silêncio que precisei criar dentro de casa.

O desafio de gravar no coração da cidade

O grande desafio de registrar este trabalho foi fazê-lo dentro de casa, em meio ao inferno urbano. No início, o processo foi uma caça aos melhores horários: madrugadas e fins de semana, quando o trânsito diminuía e a cidade parecia finalmente dormir. Eu tinha que escolher cada janela de tempo com cuidado cirúrgico para capturar a pureza das notas.

Mas, com o passar dos meses, algo mudou. Em vez de lutar contra os sons incontroláveis, comecei a aceitá-los. O ronco distante de um motor, o vento batendo na janela, o silêncio tenso entre uma nota e outra. Esses elementos deixaram de ser ruído e passaram a fazer parte da música, criando uma textura única que une a viola caipira ao contexto contemporâneo do sul do país.

As madeiras, os convidados e as memórias

Nenhum disco se faz sozinho. Este foi um processo introspectivo, mas enriquecido por parceiros essenciais. Tive a honra de contar com a participação de Mel Moraes, Claiton Scouto e Marina Ebbeke, cada um trazendo sua própria história para as cordas.

Os instrumentos também contam sua própria narrativa. Usei minha viola construída pelo luthier João Paulo Omodei, mas também a viola de Marcos Jackel, feita em “Rio Abaixo” com madeiras como o pinheiro paranaense, que entrega um timbre espetacular e frio, típico da nossa região. Além delas, a viola machete do luthier Edu Silva trouxe uma percussividade e uma intimidade que só esse instrumento menor consegue oferecer.

Sintetizadores, piano e percussões completaram o arranjo, não como adornos, mas como extensões da memória que eu queria evocar.

Do profano ao sagrado, uma jornada em dez cordas

Cada faixa do álbum carrega uma intenção específica. “Nostalgia e os Acordes da Memória” nasceu em cafés da manhã antes do trabalho. Brincar com texturas sonoras me fascina, especialmente quando envolve a memória do ouvinte. Há um trecho que cita “O Rei do Gado” como incidental, criando uma ponte direta com a saudade, antes de ser abraçada por uma melodia de viola e cello.

Em “Violas Profanas”, o arranjo de Cálix Bento já habitava minha memória, remetendo às folias de reis e aos romeiros de Aparecida do Norte. Aos poucos, uma citação sutil ao “Adagio” se entrelaçou ao canto popular. O profano e o sagrado dialogam nas cordas, unindo a herança clássica à tradição oral.

“A Trilha do Boi” me leva de volta às antigas viagens com bandas de baile pelo Mato Grosso, quando encontrávamos as boiadas e os boiadeiros na estrada. É uma música que remete a um tempo que, a cada dia, fica mais presente apenas no nosso imaginário.

Já “Dança Inesita” é uma homenagem à minha mãe. Remete aos bailinhos que ela frequentava na vila onde morava, onde o sanfoneiro só sabia tocar uma música, mas aquilo bastava para todos se divertirem e a poeira subir.

Em “Chamamé a Bailar”, tive a felicidade da participação de Claiton Scouto e Mel Moraes. No festival Feraiz de Curitiba, em 2025, conversei brevemente com Renato Borghetti, que teceu grandes elogios ao Claiton, chamando-o de “fora da caixa”. Isso fica claro na participação vibrante dele na faixa.

“Violas Jam Blues” joga a viola de cabeça no blues, com a participação da brilhante violeira Marina Ebbeke. E não posso deixar de mencionar “Sawabona (Alternate Version)”, composta na pandemia. “Sawabona” é uma saudação zulu que significa “Eu te respeito, eu te valorizo, você é importante para mim”. Uma mensagem que, acredito, dispensa maiores explicações.

O silêncio como escolha estética

No fim, “Mantras e Amiúdes” é sobre repetição, introspecção e a beleza do minimalismo. É sobre encontrar o sagrado no cotidiano e transformar as limitações de um apartamento no centro de Curitiba em uma vantagem criativa. A viola caipira de dez cordas não precisa de grandes palcos para soar verdadeira; ela só precisa de espaço para respirar.

Se você quer entender de onde vem essa música e como ela foi construída nota a nota, o álbum está disponível para escuta. Convido você a explorar as faixas, sentir as texturas e, quem sabe, encontrar um pouco do seu próprio silêncio nelas.

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Clebson Ribeiro

Por Trás da Cortina